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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Estação das Chuvas - José Eduardo Agualusa

Comecei a ler o livro, sem qualquer interesse. O título não me chamou a atenção...pensei. Mas a vontade de ler Agualusa era grande; Deparei-me logo nas primeiras páginas com três verdades incontornáveis deste país:
- uma data: 11 de Novembro de 1975.
- um nome: Agostinho Neto
-uma cidade: Luanda...estavam lançados os dados para o meu interesse;

" Em nome do povo angolano, o Comité Central do Movimento Popular de Libertação de Angola, MPLA, proclama solenemente perante África e o mundo a independência de Angola...que vivam para sempre os heróis de Angola..."
Agostinho Neto

E numa noite devorei o livro...um livro que conta a história de Lídia, uma mulher que nasceu de um romance infeliz...com duas mortes à mistura. Uma Lídia que perdeu a mãe à nascença e que por sorte vive; vive para se entregar a uma Angola e a causas revolucionárias...como ela! Uma Lídia que entre relatos quase jornalísticos e bastante precisos narra a história contemporânea de Angola. Daí ser óbvio que Torcato Sepúlveda in Público (Lisboa) se refira a esta obra de Agualusa "a mais notável obra sobre a História Contemporânea de Angola"; sem esquecer no entanto de que Lídia não existe, é apenas uma personagem do livro.
Uma das afirmações mais intrigantes e ao mesmo tempo, para quem conhece a história de Angola, mais fascinantes é:
"Eu creio firmemente que é pela poesia que tudo vai começar"
António Jacinto, em carta a Mário Pinto de Andrade, escrita em Luanda, em 1 de Fevereiro de 1952.

E não é que António Jacinto em 1952 profetizou uma independência que se iria concretizar 25 anos depois! Angola teve no seu movimento em prol da independência: Viriato Cruz e Agostinho Neto ( entre outros)...em lados opostos...mas ambos poetas.

"Nalguma dessa poesia, de autores vários...que o poder temia" porque "havia uma alma angolana. E contra essa não tinha defesa. Para quem a temia era a derrota decretada em verso"

Ruy Duarte de Carvalho , "Estamos Juntos no País que Temos"


E assim, abrindo parêntesis extensos na história de Lídia o autor conta a história política de Angola...cruzando com Lídia uma personagem fictícia personagens reais: Viriato da Cruz, o Monstro Imortal, Mário Pinto de Andrade, Valódia...

Lídia vive intensamente a vida dos homens do MPLA; "Eu conheço-os bem. Fui para a cama com todos." Conhece-os, acompanha-os e apoia-os no seu percurso...tenta em vão apaziguar a rivalidade entre Viriato da Cruz e Agostinho Neto. mas é tarde! Viriato não tem opção que não o exílio; fica no ar a ideia de que é afastado por na altura se procurar um negro para o poder (não um filho do colono)...quem sabe?

E de Viriato se passa para uma Luanda de 1988 onde Savimbi e a sua política racial ganham direito a aparecer na história...

Sem querer desvendar mais do livro, reforço a ideia que é um livro indispensável para quem quer saber mais sobre Angola e os seus homens de vulto.
Em nota de rodapé: Agualusa afirma que Lídia não existe...para mim não há dúvidas de que ela existe...